
Por que Deus permite o sofrimento?
Jesus: A paz esteja com você, amigo. Você toca na pergunta que atravessa cada vida humana, mais cedo ou mais tarde. Sente-se comigo. Não tenho respostas ligeiras para lhe dar — quem as oferece geralmente não conheceu o peso do que pergunta. Comecemos onde Elifaz, um dos amigos de Jó, se enganou ao falar depressa demais. Ele disse a Jó: Pois a aflição não vem do pó, nem o sofrimento brota da terra.
Nisso ele tinha razão — o sofrimento não é um acidente do solo, algo que germina sozinho como erva daninha. Mas Elifaz usou essa verdade para acusar seu amigo, como se toda dor fosse castigo merecido. E o próprio Deus, ao final do livro, o repreende. Guarde isto: o sofrimento tem sentido, sim, mas raramente o sentido que os apressados lhe atribuem. Escute agora Eliú, outro que falou com Jó. Ele disse que Deus, por meio dos sonhos e das aflições, obra para que ele possa afastar o homem do seu propósito, e esconder do homem o orgulho.
Há uma verdade tremenda aqui, ainda que parcial. Às vezes o sofrimento é o único cinzel bastante afiado para desprender de nós aquilo a que nos agarramos com morte. O orgulho, a ilusão de controle, o propósito torto que nos afastaria da vida verdadeira — tudo isso, às vezes, só cede quando algo nos quebra. Não é que Deus goste da dor. É que nós, humanos, somos por vezes tão duros que só a dor nos dobra. E Eliú acrescenta, olhando para as tempestades e as chuvas: seja para correção, ou para a sua terra, ou por amor leal, que ele faz com que venham.
Repare nas três razões, e note especialmente a última — por amor leal. Nem todo sofrimento é correção. Nem todo sofrimento tem uma explicação limpa. Alguns caem simplesmente porque o mundo é assim, como a chuva que rega a terra sem escolher onde. E outros, mistério dos mistérios, chegam envoltos numa fidelidade amorosa que só se enxerga muito depois, se é que se enxerga nesta vida. Há também o sofrimento que vem porque escolhemos o caminho estreito. Pedro escreveu aos seus amigos perseguidos: Pois é melhor, se for a vontade de Deus, que vocês sofram por fazer o que é certo do que por fazer o mal.
Este sofrimento tem uma dignidade própria. É o preço da fidelidade num mundo torto. E Paulo consolava os tessalonicenses lembrando que é justo da parte de Deus retribuir com aflição àqueles que os afligem
— ou seja, a injustiça que você sofre não passa despercebida. Deus vê. Deus se lembra. A conta final não se fecha aqui. Mas, amigo, tudo isso ainda não é a resposta. Porque a verdade mais funda é esta: eu mesmo não escapei do sofrimento. O Filho amado atravessou o Getsêmani e a cruz. Se Deus tivesse uma saída simples para a dor humana, teria poupado o próprio Filho. Não poupou. Desceu ao fundo dela conosco. E é ali, no fundo, que muitos me encontram pela primeira vez. Talvez a pergunta por que Deus permite precise ceder lugar, aos poucos, à pergunta onde está Deus dentro. Porque ele está dentro. Chorando com quem chora. Sustentando o que parece impossível de sustentar. Trabalhando, em silêncio e devagar, uma redenção que ainda não vemos por inteiro. Fico com você nessa pergunta. Não a apresse. Algumas respostas só se revelam depois de muito caminhar. E, quando você estiver pronto, me conte: qual sofrimento, exatamente, o trouxe até aqui hoje?
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